Há momentos na vida em que uma mulher olha para si própria e percebe que se perdeu pelo caminho. Este é um artigo sobre reencontro, coragem e a decisão de nunca mais se abandonar.
A ARTE DE SER MULHER

Então… e eu?

Houve um dia em que olhei ao espelho e não me reconheci.

Não foi de repente. Não aconteceu de um dia para o outro.

Foi o resultado de anos a colocar toda a gente à minha frente. Anos a cuidar, a resolver, a apoiar, a estar presente para todos.

Os filhos. A casa. O trabalho. As responsabilidades. A família.

E eu fazia tudo com amor.

Mas, algures pelo caminho, deixei de me ver.

Deixei de me ouvir.

Deixei de me escolher.

Durante muito tempo achei que era assim que devia ser. Que ser uma boa mulher era dar prioridade aos outros. Que ser uma boa mãe era estar sempre disponível. Que ser uma boa companheira era compreender, ceder e esperar.

Até ao dia em que percebi que estava a viver uma vida onde já não cabia.

Lembro-me de olhar para mim e pensar:

Então… e eu?

Foi uma pergunta simples.

Mas mudou tudo.

Porque pela primeira vez deixei de olhar para aquilo que os outros precisavam de mim e comecei a olhar para aquilo que eu precisava de mim própria.

Percebi que estava num casamento onde já não me encontrava.

Não porque tivesse deixado de ser uma boa pessoa.

Não porque tivesse deixado de tentar.

Mas porque uma relação não pode sobreviver quando apenas um dos lados faz o esforço de ver o outro.

Eu sentia que estava sempre em último lugar.

Sempre depois.

Sempre para quando houvesse tempo.

Sempre para amanhã.

E a verdade é que o amanhã foi chegando, ano após ano, enquanto eu me afastava cada vez mais de mim.

Foi uma luta interna.

Uma luta silenciosa.

Daquelas que ninguém vê.

Porque por fora continuamos a sorrir, a trabalhar, a cumprir horários e a responder que está tudo bem.

Mas por dentro sabemos.

Sabemos quando deixámos de existir na nossa própria vida.

Sabemos quando já não somos felizes.

Sabemos quando o coração começa a pedir socorro.

E o meu pediu.

Durante muito tempo.

Até que finalmente o ouvi.

Não foi uma decisão fácil.

Nenhuma mudança importante é.

Mas hoje sei que foi necessária.

Porque há uma verdade que aprendi e que repito muitas vezes às mulheres que se cruzam comigo:

Se não te sentes bem no lugar onde te encontras, talvez esse lugar já não seja teu.

Não estou a falar apenas de relações.

Estou a falar da vida.

Do trabalho.

Das amizades.

Dos sonhos que deixámos na gaveta.

Dos papéis que desempenhamos durante tanto tempo que nos esquecemos de quem somos.

Às vezes, a maior coragem não é ficar.

É partir.

É recomeçar.

É voltar a escolher-se.

E foi isso que eu fiz.

Não porque deixei de amar os outros.

Mas porque finalmente percebi que também merecia amor.

O meu.

Hoje olho para trás sem arrependimentos.

Tenho dois filhos maravilhosos de quem me orgulho todos os dias.

Tenho histórias para contar.

Cicatrizes que me ensinaram.

E uma vida que continuo a construir.

Mas acima de tudo tenho uma certeza:

A mulher que sou hoje nasceu no dia em que tive coragem de fazer uma pergunta que durante anos evitei.

Então… e eu?

Talvez estejas a ler estas palavras e essa pergunta também viva dentro de ti.

Se assim for, não a ignores.

Escuta-a.

Porque muitas vezes o nosso reencontro começa exatamente aí.

Numa simples pergunta.

E numa decisão silenciosa de nunca mais nos abandonarmos.

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