Mulher a refletir sobre como reencontrar a minha identidade para a série A Arte de Ser Mulher.
A ARTE DE SER MULHER

Capítulo 9 – Quem sou eu quando não estou a cuidar de ninguém?

Como reencontrar a tua identidade para além dos papéis que desempenhas

Reencontrar a minha identidade tornou-se a minha maior missão de vida. Há uns capítulos, quando partilhei convosco o arranque desta série, fiz uma pergunta que ecoava no fundo do meu próprio peito e que sei que tocou a alma de muitas de vós: “Então… e eu!?”. Aquele foi o meu primeiro passo para voltar a gostar de mim mesma. Fiz o caminho, limpei as gavetas da minha alma e, no último capítulo, ganhei a coragem necessária para deixar de agradar a todos.

No entanto, quando finalmente fechei a porta às expectativas do mundo, um silêncio novo instalou-se na minha casa. E com esse silêncio, surgiu a pergunta mais desafiante de todas: afinal, quem sou eu quando não estou a cuidar de ninguém?

Confesso que, nesta fase, me senti profundamente perdida. Era um vazio estranho. Passei tanto tempo a responder às necessidades dos filhos, do parceiro, dos pais, dos amigos e do trabalho que, quando finalmente consegui ter tempo para mim, não sabia o que fazer com ele. Sentei-me no sofá e percebi que a minha individualidade tinha sido engolida pela rotina. Se também estás a passar por isto, deixa-me dizer-te que este vazio não é o fim; é o espaço em branco necessário para conseguires “reencontrar a tua identidade.”

O Peso Invisível dos Papéis que Acumulamos

Olhando para trás, percebo como fui ensinada — assim como a maioria das mulheres — a definir o meu valor através dos papéis que desempenhava na vida dos outros. Fui a filha exemplar, a companheira dedicada, a mãe incansável, a profissional que não podia falhar. Tornei-me uma excelente cuidadora do mundo, mas uma péssima cuidadora de mim própria. Criei uma rotina onde a minha existência servia apenas como o suporte para que a vida das outras pessoas funcionasse sem qualquer sobressalto.

O grande perigo deste ciclo é a perda gradual de identidade. Quando o nosso papel de mãe, esposa ou profissional ocupa cem por cento do nosso espaço mental, nós deixamos de existir enquanto indivíduos. Passamos a ser uma função.

Eu recordo-me do dia em que olhei para o espelho e não reconheci a pessoa que estava do outro lado; eu era a mãe de alguém, a profissional de alguém, mas onde estava EU?

O meu processo de reencontrar a minha identidade começou exatamente quando compreendi que sou muito mais do que os títulos que acumulei ao longo dos anos.

A Diferença Entre Cuidar e Desaparecer na Vida dos Outros

É importante esclarecer um ponto essencial que aprendi nesta caminhada: cuidar de quem amamos é um ato nobre, bonito e natural. A verdadeira elegância não nasce apenas da imagem. Nasce no momento em que uma mulher volta a olhar para si com carinho, presença e amor-próprio. No entanto, descobri da pior maneira que existe uma linha ténue, mas perigosa, entre cuidar do outro e desaparecer na vida do outro.

Quando o ato de cuidar se transforma numa anulação total dos teus gostos, das tuas vontades e do teu descanso, já não estamos a falar de amor; estamos a falar de uma dependência da utilidade. Eu própria cheguei a acreditar que só era amada se fosse útil. E a verdade dura é que, se a nossa autoestima depender apenas do que fazemos pelos outros, estaremos sempre à mercê do reconhecimento alheio para nos sentirmos válidas.

Sinais de que te Perdeste nos Papéis da Vida

Neste meu processo de introspeção, identifiquei alguns sinais claros de que me tinha esquecido de mim. Vê se te revês em algum deles:

  • Não consegues responder de imediato à pergunta: “O que é que gostas de fazer nos teus tempos livres?”.
  • Sentes uma pontada de culpa ou ansiedade quando estás um bloco de tempo sem fazer nada produtivo.
  • Os teus assuntos de conversa giram sempre em torno da vida dos teus filhos, do teu parceiro ou dos problemas do trabalho.
  • Vestes-te apenas por praticidade, esquecendo o teu estilo pessoal, os teus detalhes e a tua vaidade.
  • Sentes que, se deixares de fazer metade das tuas tarefas diárias, as pessoas vão deixar de precisar de ti (e isso assusta-te).
  • Já não te lembras da última vez que fizeste alguma coisa apenas porque te fazia feliz.

Os Meus Passos Práticos para Reencontrar a Minha Identidade

Resgatar quem nós somos exige paciência e, acima de tudo, muita curiosidade. Tive de aprender a namorar comigo mesma outra vez, a conhecer esta mulher que mudou ao longo dos anos e que agora tem novas maturidades e desejos. Deixo-te três exercícios simples que funcionaram comigo e que podes começar a aplicar já hoje no teu quotidiano.

1. Reclama Pequenos Detalhes do Teu Dia

Como costumo dizer aqui na Dona Detalhe, a verdadeira elegância começa nos detalhes. Não precisas de mudar a tua vida inteira de um dia para o outro. Eu comecei por escolher uma música que adoro para ouvir no carro a caminho do trabalho, em vez de ir a ouvir as notícias ou o silêncio do meu cansaço. Comecei a beber o meu café da manhã numa chávena bonita, devagar, sem o telemóvel na mão. Estes micro-momentos enviam um sinal claro para o teu cérebro: “Eu importo, eu estou aqui”.

2. Faz uma Lista dos Teus Gostos Esquecidos

Tira trinta minutos esta semana para escrever num caderno. Responde a estas perguntas como se estivesses a responder a uma nova amiga que quer mesmo conhecer-te:

  • Que tipo de livros ou histórias me faziam perder a noção do tempo no passado?
  • Qual é a cor que me faz sentir mais bonita e confiante quando a visto hoje em dia?
  • Se eu tivesse um sábado inteiro completamente livre de responsabilidades e sem ninguém para alimentar, onde é que eu iria e o que faria?

3. Agenda um Compromisso Inegociável Contigo

Olha para a tua agenda semanal. Assim como marcas uma consulta no médico ou uma reunião importante de trabalho, marca uma hora para ti. Pode ser uma caminhada ao final da tarde, um banho mais demorado, ou o momento para ler o teu livro favorito. Eu aprendi a tratar este compromisso com o mesmo respeito com que tratava os compromissos dos outros.

Viver a Solitude com Elegância e Presença

Ao fazeres este caminho de reencontrar a tua identidade, vais acabar por descobrir a beleza da solitude. Ao contrário da solidão — que dói e causa isolamento —, a solitude é a nossa capacidade de desfrutar da própria companhia com paz, leveza e serenidade. É perceberes que te bastas a ti mesma e que a tua presença é o teu bem mais precioso.

Uma mulher que sabe quem é, que reconhece os seus limites e que não tem medo de estar consigo mesma, emana uma elegância silenciosa que nenhuma roupa de marca consegue comprar. Ela torna-se magnética porque a sua segurança não vem dos aplausos ou da aprovação do mundo; vem do respeito profundo que tem pela sua própria história.

Olha para o teu espelho hoje. Deixa cair por uns instantes os aventais, os relatórios, as preocupações e as listas de tarefas. Olha nos teus próprios olhos, assim como eu fiz, e faz o teu compromisso de hoje em diante: tu podes continuar a amar e a cuidar do teu mundo, mas nunca mais vais esquecer que tu és o centro dele.

Durante muitos anos achei que a minha missão era cuidar de toda a gente. Hoje continuo a cuidar. Mas já não me abandono pelo caminho. Aprendi que uma mulher não deixa de amar os outros quando começa a amar-se a si própria. Apenas deixa de se esquecer de quem é.

E talvez seja essa a resposta à pergunta que abriu este capítulo.

Quem sou eu quando não estou a cuidar de ninguém?

Sou, finalmente…

EU.

Com carinho,

Esmeralda Ferreira

Autora da série A Arte de Ser Mulher
Fundadora da Dona Detalhe

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