Hoje escrevi num guardanapo
Hoje não trouxe o meu caderno.
Nem o bloco de notas.
Nem sequer tinha intenção de escrever.
Trouxe apenas os pensamentos que me acompanhavam enquanto tomava o pequeno-almoço na cafetaria de sempre.
A mesma mesa.
O mesmo café.
O mesmo cantinho onde tantas vezes me sento para pensar na vida.
Mas hoje a vida pesava um pouco mais.
Ontem recebi uma notícia que me partiu o coração.
A minha tia paterna, que sempre foi muito mais do que uma tia para mim, está gravemente doente.
Há pessoas que ocupam lugares especiais na nossa vida.
Lugares que não se explicam.
Sentem-se.
E ela ocupa um desses lugares.
Talvez por isso tenha sentido necessidade de escrever.
Não num caderno.
Não num computador.
Mas num simples guardanapo.
Como se as palavras precisassem de sair naquele instante.
Sem filtros.
Sem preocupações.
Sem perfeição.
Escrevi:
“Não fui criada para desistir.
Pago o preço.
Mesmo cansada.
Mesmo com medo.
Mesmo em dias difíceis.
Mas faço.
E vou continuar a fazer.”
Fiquei a olhar para aquelas palavras durante alguns minutos.
Porque, na verdade, elas não falavam apenas deste momento.
Falavam de uma vida inteira.
Falavam das vezes em que pensei que não ia conseguir.
Das vezes em que chorei em silêncio.
Das vezes em que tive medo.
Das vezes em que a vida me obrigou a ser mais forte do que queria.
E também das vezes em que continuei.
Não porque fosse invencível.
Não porque não doesse.
Mas porque desistir nunca me pareceu uma opção.
Há dias em que a vida nos oferece motivos para sorrir.
Outros em que nos oferece motivos para parar e respirar fundo.
Hoje foi um desses dias.
Um dia em que percebi que a coragem não é ausência de medo.
A coragem é continuar apesar dele.
É levantar-se mesmo quando o coração pesa.
É fazer o que precisa de ser feito mesmo quando não temos todas as respostas.
É continuar a amar, mesmo sabendo que nem sempre podemos mudar aquilo que está a acontecer.
Enquanto escrevo estas palavras, continuo sentada na mesma cafetaria.
O café já arrefeceu.
A vida continua lá fora.
E eu continuo aqui.
Com os meus pensamentos.
Com as minhas preocupações.
Com o meu amor pela minha família.
E com a certeza de que há dias em que não precisamos de grandes discursos.
Precisamos apenas de continuar.
Um passo de cada vez.
Um dia de cada vez.
E, às vezes…
um guardanapo chega para nos lembrar disso.